quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Quadrinhos e Livros para este Halloween

Gostaria de citar uma lista de personagens emblemáticos da literatura que caberiam neste Halloween, porém, só agora lembrei-me de que não possuo essas respectivas leituras. Eu ainda não li nada da franquia Lovecraft, conheci de ouvir o pessoal falar e compartilhar opiniões. Stephen King, só vejo suas obras em filmes, o que entendo que não deve ser a mesma coia, já que a produção cinematográfica costuma sempre modificar o filme. Ano passado listei alguns títulos literários os quais achei que se encaixavam no clima. Confira aqui.

Para este ano, gostaria de começar com:

Morte Crens, um personagem que tem todo seu universo de humor negro pautado em cima do cotidiano daquele que é reconhecido como o mensageiro da morte. A própria morte em pessoa. Nas mãos de Gustavo Borges, o criador das tirinhas de quadrinhos, seu nome é Morte Crens e contrasta com a Vida, criada algum tempo depois e que rende algumas tirinhas de trocadilho. Tive a graça de adquirir o primeiro encadernado: "A Entediante Vida de Morte Crens". Hoje, parece que também existem "A Entediante Família de Morte Crens" e "O Entediante Trabalho de Morte Crens". Gustavo Borges é autor de outros projetos de HQs bem distintos, inclusive da Graphic Novel "Cebolinha - Recuperação". Mas estamos em clima de Halloween, então Morte Crens é o mais indicado agora. Conheci Morte Crens muito antes do artista ter toda popularidade atual, o que para mim faz muita diferença porque mostra que apreciei seu trabalho porque realmente mexeu comigo.

Eberton Ferreira com sua série "Causos" começou de modo modesto com uma bela revista em preto e branco cuja arte é diferenciada e em papel de grande qualidade. Com o passar do tempo, o autor foi elaborando as sequências, sendo até agora:

CAUSOS #1 - O DEMÔNIO DAS MATAS
CAUSOS #2 - A BRUXA DA FLORESTA
CAUSOS #3 - O DEVORADOR DE ALMAS
CAUSOS #4 - O MONSTRO DO RIO

https://fanzineston.blogspot.com
Zap: (21) 96736 1309  E-mail: eberton.ton@gmail.com

Se você mora nas proximidades de São Gonçalo (RJ), tem grandes chances de adquirir seu exemplar diretamente com Eberton, vez que ele participa de vários eventos de quadrinhos e literatura no município e adjacências. Até compareceu em um, na Capital de SP, neste mês de Outubro. Ele não poupa esforços para caprichar em suas obras e, principalmente, em levá-las ao público que prestigia essas ocasiões.

Monstro do Pântano é um título de HQ que ainda pode ser encontrado nas melhores bancas. Publicado pela Panini, volta e meia essas histórias dão as caras em encadernados. O estilo é um tanto mórbido, pois trata-se de um homem que é transformado em um tipo de monstro vegetal. Na verdade, é como se uma montanha de plantas, folhas e raízes se juntasse e criasse vida. Algo bem feio de se ver, mas que rende ótimos roteiros, tanto para nos divertir quanto para nos fazer refletir. Ao longo do tempo, vários autores trabalharam na produção das tramas do Monstro do Pântano. A fase mais comentada é a do Alan Moore: famoso escritor e ilustrador britânico.

Noite de Arrepios é para o pessoal que já se acostumou a ler pelo Kindle, seja no próprio dispositivo ou como aplicativo de celular. É um livro que reúne vários contos de escritores como eu, que não têm onde caírem mortos (estou brincando, hein, gente!) e por isso compõem essa antologia temática do Dia das Bruxas. Segundo a Amazon, são de 234 páginas repletas de contos de aproximadamente dez páginas. Já estou na metade do meu, pois é muito pratico ler pelo celular na fila do banco, da lotérica, dentro do ônibus. A gente, que é pobre, não pode sonhar em ler no avião, à beira do mar do caribenho e, menos ainda, a caminho da Big Apple do Tio Sam. Com a gente, o esquemão é ler enquanto pega uma fila mesmo. No máximo, sentar em uma poltrona de shopping com ar condicionado e se sentir "o nerd". Mas voltando ao foco, tem uma boa variedade de histórias. Algumas delas eu gostei, como a primeira que, apesar de previsível, entrou em sintonia comigo porque as instruções da magia são reais, ou seja, dá para ser feito aquilo, de verdade . A maioria, apesar de serem bons, não conseguiram meu apreço, mas pode ser porque estou com mais leituras engatilhadas e não consegui entrar no clima. Há um e outro conto que dá vontade de mandar a pessoa de volta para a escola. Mas penso que vale a pena essa dica para quem gosta de antologias, pois é sobre Halloween. Em mais de duzentas páginas, estou certo de que alguma trama irá agradar.
O Vale dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira, pela Faro Editorial, é o primeiro de uma série que, se não me engano, possuem 4 volumes. Eu não o li, mas indico porque pretendo dar um jeito de conhecer essa obra, em breve, pois me interessou esse estilo "The Walking Dead". Espero também encontrar referências a George Romero. Se você leu, comente o que achou.

Bom... Essas são as indicações de leitura que trago para esta noite que está começando. Lembrando que 2 de novembro é Dia de Finados, portanto, mais uma data que nos remete aos mortos, às perdas e aos laços emotivos. 

Abraços a todos. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

[Livros] Book Trailler e Promoção do E-book Gratuito

Foi lançado, em 03 de Outubro, "O HOMEM QUE NÃO IA À IGREJA", meu primeiro conto erótico gay, disponível no site da Amazon.

É estranho falar de minha própria obra, pois é lógico que a considero uma grande arte, tudo de bom, linhas e mais linhas que mexem com a imaginação e elevam a temperatura da gente. Leitores maiores de idade saberão do que estou falando, pois são o público alvo.
clique aqui para a promoção e-book gratuito
www.amazon.com.br/dp/B07YQ713W8 
De 27 a 29 de Outubro, o conto está na promoção do e-book gratuito. Como a Amazon trabalha no horário do Pacífico (e não no de Brasília), ainda é possível garantir seu e-book nas primeiras horas do dia 30, mas não sei precisar até quando (fica a dica). 

É da minha vontade publicar meus textos e ser lido pelo mundo inteiro. Não faço a menor ideia do que me virá como consequência. Projeto, sim, obter bom reconhecimento com benevolências, alegrias e realizações. Quero me sentir bem e feliz com o que escrevo.


sábado, 19 de outubro de 2019

[Livros] Lendo Vários Livros

Hoje quero compartilhar um fato que não sei se já aconteceu com algum de vocês, mas está ocorrendo comigo neste momento.

Eis que em determinado dia chegou o livro de um colega escritor da baixada fluminense, Marcelo Rua, por quem tenho certo apreço. Comecei a ler "As Vagas Gigantes" como quem não queria acabar mais. 

Em um evento, encontrei um colega do movimento de luta pelos direitos das pessoas vivendo com HIV/AIDS, vi que ele estava vendendo seu livro e resolvi adquirir um exemplar. A obra se chama "Vida e Morte Posithiva", assim mesmo, com o "HIV" no meio da palavra. É comum essa grafia em vários livros e documentos que envolvem pessoas como eu, vivendo com HIV. Beto Volpe é um daqueles ícones das antigas que viu de perto o horror da epidemia, bem naquela era Cazuza. Fiquei curioso em ler e me agarrei ao livro como se não houvesse amanhã.

Acontece que uma terceira obra apareceu quando menos esperava: uma colega anunciou sua obra gratuita na Amazon. Sempre quis conhecer seus trabalhos (mera curiosidade) que são até bem acessíveis, porém, como já tive as duas leituras engatilhadas, acabava deixando para depois. Quando vi o anúncio de que "A Vida Que Deixei Para Trás" estava gratuito, achei melhor garantir o meu. Comecei a ler as primeiras páginas, apenas para ter um leve gostinho do que me aguardava em breve, após concluir as duas outras leituras... e acabei mergulhando na trama de mais de quinhentas páginas. C. M. Sang., apesar do pseudônimo desnecessário, escreve muito bem.

Permaneço lendo essa aquisição mais recente, já que tenho comentando alguns trechos com a autora pelas redes sociais (um hábito que estou adquirindo e, ao menos para mim, tem sido legal). Tão logo terminar, o que será logo, voltarei à trama da AIDS, pois ainda tenho muita curiosidade de ler o resto dos relatos de Beto Volpe. Só a seguir é que voltarei para o do Marcelo Rua. 

Pode parecer confuso e estranho, mas nem precisarei recomeçar do início, pois tem sido tudo tão recente que ainda tenho muito dessas informações em minha memória, o que ajuda bastante a prosseguir. Para pegar o fio da meada, basta reler uma página que está com o marcador. Na verdade, não é muito diferente de quando acompanho aquelas séries que passam apenas uma vez na semana. Eu posso assistir, por exemplo, "The Walking Dead", "Narcos" e "La Casa de Papel". Em uma semana, aguardarei pelo episódio novo, embora a memória ainda se recorde dos principais fatos. É assim. 

Se pretendo repetir essa experiência? Não considero boa ideia. Serviu para perceber que ler uma trama não inviabiliza aquela outra a qual já tinha mais da metade consumida. Não sei como funciona a mente da gente, mas dá para alocar o conteúdo de ambas, numa boa. Só não considero tão legal ficar me dispersando na leitura. Já sou assim com a TV, com os gibis, será que agora serei com os livros também? Oh, céus!

domingo, 13 de outubro de 2019

[Livros] Promoção E-book de Gratuito



"As Cobras Não Amam" é meu primeiro e-book na Amazon, publicado há cerca de dez meses e agora está na promoção de livros gratuitos, que é uma forma de torná-los acessíveis aos leitores que ainda não têm a assinatura do Kindle Unlimited. Para adquirir o seu, clique aqui e faça o download ainda hoje.


Atenção: mesmo depois de ver a capa bonitinha no seu Kindle, recomendo que faça o download como se fosse iniciar a leitura, pois, desta forma, você garante que a obra continue em seu dispositivo. Estou dizendo isso porque já aconteceu de baixar livros gratuitos e, quando finalmente eu resolvia ler, eles não abriam. Então alguém me deu essa dica. Não basta baixar da Amazon e ver a capinha lindinha no aplicativo de leitura. Tem que clicar nela para ler o e-book. Só assim o download se torna real.

Tenho duas obras na Amazon. Um romance e um conto. Ainda estou engatinhando neste sistema. Estou feliz até o momento, pois o formato e-book disponível dá credibilidade ao autor iniciante que apresenta seu trabalho em pé de igualdade em relação aos livros de editoras. É uma iniciativa que vai além de publicar no blogue ou em plataformas descompromissadas. Escrevo desde uns 20 anos. Saber que posso colocar minha obra à venda em um site bem conhecido, sem agonizar meses pela resposta de uma editora, é motivador. 

Sobre o livro: trata-se de leitura para maiores de idade, gênero específico que atrai número maior de mulheres e homens que fazem sexo com homens. Veja que não usei a palavra "gay" ou "homossexual" para definir, pois há homens que fazem sexo com homens que não se consideram assim. Em geral, toda pessoa adulta pode ler, porém, esse é o público que predomina.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

[Miniconto] Corpo Que Fala


Três horas da manhã. Um tempo nebuloso, pesado, com nuvens a desaguar as lágrimas da desesperança celestial sobre a Terra. Um campo estranho, aberto, abandonado, cuja vegetação é escassa e nada de bom parece compor o ambiente torna-se o cenário ideal para ela: mulher possuída pela ira de tantas e tantas dores suportadas e sufocadas. Ansiava acabar logo com aquela história, enterrar de vez aqueles momentos. Nada mais lhe importava.

A pá deu sua última fincada na terra úmida pela chuva fina que ia e vinha.

Já era o bastante. Um saco preto foi colocado naquele buraco. Ao cair, rasgou-se, expondo a cabeça sem vida.

Antes de cobrir o saco jogado, ela se abaixou e, com uma das mãos, a cabeça do defunto ela levantou.

— Verme desgraçado! Olhe o que fez comigo! Transformou-me neste monstro que agora sou! 

Para seu espanto, o defunto falou:

— Você sempre foi o que agora vê. Esse ser repugnante sempre esteve dentro de você.

— Cale essa boca! — ela berrava, repetidas vezes, espancando a cabeça faladeira contra o solo.

E com total ausência de escrúpulos, colocou de volta a cabeça do homem dentro do saco preto, onde certamente estavam seus restos mortais. E com a pá, começou a cobrir a cova rasa ao som daquela voz abafada que lhe implorava piedade. Ele estava morto há horas. E morto não falava. Ela sabia que aquele truque não passava de um golpe da própria mente que a julgava culpada.

A chuva fina tornou a cair. Ela compactou a terra e esparramou a vegetação arrancada, dificultando a fácil visualização de que o trecho foi adulterado. Em breve e com um pouco de sorte, o capim reestruturaria suas raízes.

"Finalmente, um pouco de paz!", ela concluiu, indo embora sem ao menos olhar para trás.
Em casa, ao providenciar o banho na hidromassagem luxuosa, permitiu-se contemplar todo seu corpo. Em suas memórias vieram as juras de amor e o tempo passado de como ele era encantador. Sem nenhum motivo, as coisas foram mudando até que tudo se tornou dor.

Após o casamento,  era frequente o desentendimento. Brigas a todo momento. Ferimentos causados por ele. Cicatrizes permanentes do empoderamento.

Ela chorou. Cobriu o rosto com as mãos e chorou.

A água abastecia a hidromassagem. Sais de banho, velas aromáticas, o melhor sabonete acima de duas felpudas toalhas. Uma alma sem a menor ideia de seu amanhã. Despreparada. Desamparada. Atormentada.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

[Quadrinhos] Um Evento, Uma Organização e Um Tolo à Disposição

Quando a gente vê esses eventos acontecendo, tudo muito lindo e bacana, não imagina a trabalheira que a organização dele traz. As pessoas se propõem a dar o melhor delas mesmas para a realização, muitas vezes, sem ganhar um tostão, apenas pela paixão aos quadrinhos, à leitura e ao mundo nerd/geek que também engloba miniaturas de coleções, cosplayers, filmes e séries. Aqui em Ribeirão Preto tivemos uma inciativa bem bacana, o Festival Ribeirãopretano de Quadrinhos - FRIQ. Houve uma edição em Setembro, mas eu quero comentar mesmo é da seguinte, a de Dezembro, porque participei um pouco dela.
Cartaz do evento. Arte elaborada por Bro da Silva
A arte do Bro foi utilizava em todas as divulgações
Conforme vemos na ilustração acima, o FRIQ - Festival Ribeirãopretano de Quadrinhos aconteceu de 10 a 18 de Dezembro de 2016. A proposta era levar palestras, oficinas de arte, exposições e a tão esperada feirinha de HQs que todo evento deve ter. Algumas das pessoas mais importantes da organização eram meus contatos de rede social. A gente já tinha se encontrado pessoalmente, em feirinhas mais simples, trocado uma boa ideia, o suficiente para uma aproximação que se firmava pelas redes, pois era lá que alguns se reuniam para estabelecerem as coordenadas. 

Alguém propôs a novidade de nove dias de eventos em vez de apenas um ou dois, levando em conta a possibilidade da baixa adesão devido às pessoas não desejarem permanecer o dia todo em um mesmo lugar. Então, em vez de concentrar todas as atividades em um ou dois dias que poderiam ser cansativos ao perfil de cidadãos ribeirãopretanos que não estavam acostumados a prestigiar essa temática, chegou-se a um consenso de que uma atividade/dia, durante duas ou três horas (normalmente à noite) ao longo de toda a semana seria mais produtivo e traria mais adeptos.

Resumindo a questão toda, já havia o cronograma, os lugares de cada atividade, os palestrantes, expositores, artistas, enfim, os profissionais adequados a cada ocasião, já estava tudo acertado para cairmos em peso na divulgação em massa, exceto um detalhe: não havia material visual. Pessoas conheciam pessoas, mas os nomes citados, por algum motivo, tornaram-se inviáveis. Acompanhei aquela caçada a um profissional camarada que elaborasse "na faixa" as 'infos' para serem lançadas nas redes sociais e compartilhadas à exaustão por um monte de gente, até que resolvi me manifestar.

"Não sou profissional da área, mas sei lidar com edição de imagens, quem sabe eu possa ajudar." 

No segundo seguinte, lá estava eu com uma das pessoas mais importantes da organização a me dirigir nas artes das divulgações. Abaixo, algumas delas:
 
Confesso que não pensei que envolvesse tantas horas em cima de um mero cartaz. O organizador era uma pessoa muito rígida que me fazia testar várias fontes sem conseguir se decidir. Foi assim com a logomarca, o título em destaque do dia, as legendas das fotos, em que posição deveriam estar, testávamos várias fontes, em várias localizações, ele nunca estava contente com algo que eu sugeria. Era sempre ele que tinha a última palavra que, muitas vezes, resultava em algo que precisava ser modificado e adaptado umas quinhentas vezes. 

Após permanecer cerca de cinco horas durante alguns dias para pouco andamento, notando que a pessoa estava bem acomodada na posição dela, comecei a me estressar porque eu julgava que as artes estavam poluídas demais. Até então, eu não tinha nada que gostar. Meu oficio era fazer o que a pessoa mandava. Mas estávamos lentos demais. Foram dias exaustivos para montar apenas 3 divulgações as quais poderiam ter sido elaboradas de maneira bem mais rápida e eficiente se tivessem me dado liberdade para mandar bala do meu jeito ou, melhor ainda, se o organizador não fosse tão indeciso e perfeccionista em cada vírgula, em cada detalhe minúsculo que fosse. Quando aconteceu isso no primeiro cartaz, fiquei de boa, pois levara um tempão, mas os outros seriam bem mais rápidos porque eu pensava que seguiríamos o mesmo padrão de fonte e posicionamentos. Só que não! Todas as três artes foram uma verdadeira 'via crucis' porque ele não desejava seguir padrão. Era como andar em círculos e devagarinho, devagarinho.

Um dia, tomei a iniciativa de produzir uma das divulgações e mostrei ao organizador, que não gostou nenhum pouco porque, segundo ele, omitia informações necessárias. Os palestrantes e suas fotos, os locais com suas logomarcas, enfim, todos os envolvidos naquela atividade específica do dia, segundo ele me dizia, deveriam ter seus nomes devidamente creditados no cartaz. Omitir não pegaria bem, deixaria-os com raiva e talvez até cancelariam a atividade. Mesmo alegando que eram informações demais para um simples 'post' de rede social, que as pessoas sequer prestariam atenção em tudo aquilo, compreendi o macete. Era um "toma lá, dá cá": a pessoa cederia seu espaço ou seu tempo/material para o evento, mas deveríamos creditá-la nas 'infos' porque era publicidade pelo seu enooorme favor. Não discuti mais sobre esse aspecto. Sobre minha arte, lógico que seria descartada, mas ele gostou do tema do dia abordado, então resolvemos trabalhar em cima dele. Veja, abaixo, minha arte, segundo meu conceito menos poluído, dando ênfase no assunto principal, que era o que mais interessava e mereceria destaque, em vez de me preocupar com fotozinha bonita desta ou daquela pessoa.  
Como eu disse, ele não gostou da minha ideia, mas resolveu querer trabalhar o evento desse dia. Então começamos tudo de novo, à maneira dele, testando quinhentas fontes em quinhentos lugares para colocar um destaque, depois mais quinhentas fontes em mais quinhentos lugares para as legendas, depois as fotos, o redimensionamento que ele julgava adequado, o lugar, enfim, toda a ladainha de nunca estar bom, de estar confuso, não conseguir se decidir, horas e horas, e volta naquela, e volta na quadragésima terceira que usamos (que nem me lembrava mais qual era) etc. Obviamente que não terminamos a arte naquele dia, mas adiantamos muita coisa. Ela seria a quarta arte. Ou a quinta? Já nem sei mais. Seria, mas não terminei, não a entreguei para  ninguém terminar por mim e agora vou contar o motivo. 

Eu estava exaurido daquela maratona, pois também tinha meu trabalho à noite para lidar, meu companheiro que precisava de mim, mas deveria ser forte e paciente porque esse tipo de ofício era exatamente assim (eu suponho) em um empresa de verdade. Esse projeto seria bom para mim, que poderia utilizá-lo em meu portfólio no futuro. Além disso, o motivador maior para seguir em frente era o horário que o organizador tinha me prometido como palestrante sobre quadrinhos Disney no último dia do evento. Um dia antes, teríamos Marcatti e, no último, uma palestra sobre os quadrinhos Disney. Minha ideia era trazer o editor responsável pelo quadrinhos Disney na Abril, já que ele se mostrava disposto em participar de eventos assim. Acontece que, desde o princípio, o descartamos porque a CCXP estava muito em cima (em relação ao nosso evento) e por isso não era possível ele vir. Então os organizadores chegaram a um consenso de que não haveria nenhum problema me colocar para a pauta Disney. Eu, a princípio, nem acreditava em tal possibilidade, cheguei a falar que eles estavam loucos e que poderíamos ter problemas porque nem funcionário da Abril eu era. Mas insistiram porque eu estava por dentro dos lançamentos e das novidades e, afinal, eu era um leitor veterano de HQs. A intenção era justamente incentivar o colecionismo e a leitura através de uma roda de conversa com os presentes. Então, com o passar dos dias, fui me acostumando com a ideia.

Eis que, não me lembro bem como e nem quando, mas sei que me lembro que eu estava cansado demais por largar aquela arte para ser terminada no dia seguinte, por achar que estava tudo se encaminhando de maneira arrastada, então desabafei alguma coisa com um outro amigo dessa turma. Ele era professor de arte, já estava acostumado a produzir ilustrações para livros e diversos eventos culturais. Ao saber da canseira que o organizador (que ele conhecia muito bem) estava me dando, ele riu e me falou que eu jamais deveria ter dado essa brecha. Nem ele, que era experiente e tinha sua clientela, não permitia essa relação controladora  Naquele instante, senti duas orelhas de jumento no lugar das minhas. 

Um tempo depois, passeando um pouco para aproveitar aquela noite de folga do trabalho, eis que alguém posta no zap uma alteração na programação. Alguma coisa sobre os três último dias, acho que era uma mudança entre Marcatti e alguém representando a Livraria da Travessa que, por usa vez, daria ênfase à Companhia das Letras.  Fui me situar do assunto e percebi que não havia nenhuma menção a mim nem aos quadrinhos Disney. Olhei os três últimos dias e não havia nada sobre minha palestra.  Fiquei esperando alguém me informar, mas nada aconteceu até que, diante da minha súbita colocação, veio uma voz masculina de piedade me confirmar o que eu desconfiava: tiraram-me da programação e o tema Disney tinha sido desconsiderado por imposição do representante da Companhia das Letras. Eles acataram, vez que essa turma tinha um certo espaço na Livraria da Travessa para um grupo de leitura mensal. 

Até hoje, não sei se acredito nessa história. Acho-a bem possível. Mas, independente de ser verdade ou não, ninguém tinha chegado em mim e aberto o jogo. Se tivessem feito isso, eu compreenderia. Tranquilão. Mas eu me lembro que descobri essa coisa toda por acaso. Ficou todo mundo quieto, inclusive o tal organizador que passava horas e horas me torrando a paciência com suas manias e exigências. Estávamos a uma semana do evento, eu já tinha contado aos meus pais e aos meus irmãos que eu seria palestrante. Eles estavam se programando para me prestigiarem lá. Já pensou, se eu não tivesse descoberto a tempo, no mico, no constrangimento, no desprazer que eu estava prestes a passar? 

"SACANAGEM" foi a única palavra que dominou minha cabeça. Quiseram me usar para produzir o material artístico para divulgação nas redes sociais, por isso ficaram todos caladinhos. E permaneceriam assim até que eu terminasse o último. Mas isso não ficou assim. Quando finalmente me caiu a ficha, surtei e afirmei que não me comprometeria mais com as 'infos', que era para eles se virarem. Mesmo aquela que faltava pouca coisa para terminar, eu não a repassaria para eles. E cortei contato. 

Calcei a cara para informar à família que eu não seria mais palestrante. Tive que explicar aos meus pais o que tinha ocorrido. Meu pai ficou revoltado, falou até em chamar a polícia. Ele pensou o mesmo que eu, que tinham me usado, tinham se aproveitado de como eu sou. Estiveram apenas me iludindo para obterem o que precisavam. Peguei minha vontade de chorar, a sensação de ser o homem mais otário do universo e toda a frustração, enfiei tudo isso em algum bolso da minha calça e sorri para eles, fingi que estava tudo muito bem e que eu não me importava. Meu pai já estava doente da cirrose, minha mãe tinhas as questões dela também, então eu não podia JAMAIS me sentir no direito de demonstrar o menor abatimento. Eu estava inabalável. Mudamos de assunto e rimos e nos entretemos. Foi assim que eu me obriguei a agir. Como não tenho mais meu pai, hoje em dia, eu me orgulho muito dessa minha decisão de não me mostrar frágil, pois só teria feito mal a ele e não mudaria a situação.

De alguma forma, sei lá como, alguém fez as divulgações que restavam. Percebi logo que a pessoa não ficou horas e horas a mercê de muita firula e frescura como eu tinha ficado. Era visível. Do evento, fui apenas um dia (acho que era o último ou penúltimo; eu meio que bloqueei alguns detalhes na minha mente e nem foi por querer). Cheguei já quase no término da atividade. Ouvi alguém falando de Marcatti, mas não assimilei, na hora, o que era. Acho que era ele quem estava lá, falando com as pessoas. Eu vi um homem careca, branco, supostamente magro e de estatura mediana em uma salinha. Como eu tenho mais de 1m80, ele me pareceu bem menor. Mas eu o vi à distância, do lado de fora da sala, em uma porta entreaberta, como um forasteiro. Foi como me senti naquele local no pouco tempo de minha presença. Ora um fantasma, ora forasteiro. Logo eu, que desenho, faço quadrinhos, escrevo, que deveria me sentir em casa. Dois amigos da turma conversaram comigo depois, tratando-me de igual para igual, sem aquele arzinho de piedade. Eu sequer toquei no assunto. Conversamos sobre algumas séries, então veio o assunto do momento: The Walking Dead. Um deles me indicou Black Mirror e me contou como era um episódio, para eu ter uma noção do que se tratava a série.

O organizador que me aporrinhava as ideias passava lá e cá, umas dez vezes, mas em nenhuma delas chegou e falou ao menos: "Oi, sua bicha louca vagabunda! Você por aqui? Não cansa de ser otária, não?", ele ia mudo e voltava calado. Parecia que nem respirava quando passava ao meu lado. Fui embora logo após a conversa sobre Black Mirror, pois o evento tinha acabado, as pessoas estavam se despedindo. E assim terminou minha ligação com esse evento. Foi uma experiência. Hoje em dia, meu encanto para acontecimentos dessa natureza não existe mais. Eu, que sempre preferi a reclusão, continuo preferindo-a, cada vez mais.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

[Quadrinhos] Pateta n° 3 - Culturama

Pateta n° 3 da Culturama foi publicada em Junho de 2019. Se fosse pela editora Abril, esta seria o n° 91 da série vigente à época. Eu a adquiri no finalzinho de Julho, junto com Pato Donald e Aventuras Disney, ambas n° 3, como presente de aniversário para mim mesmo. Já falei do Pato Donald aqui e de Aventuras Disney aqui. Agora vou falar do Pateta. 

Contendo três HQs, a edição é muito boa. Prevaleceu o estilo italiano na maioria das páginas, sendo obras que foram muito do meu agrado.
Pateta e Mickey e os Números do Futuro - Prof. Zapotec está preocupado. Seu parceiro, Marlin, não regressou de uma das viagens pelo tempo. Mickey e Pateta são enviados para resgatá-lo. A aventura em Roma, Dezembro de 1955, mostra uma suposta evolução da calculadora (que foi inventada pelos chineses do século VI e remodelada através dos tempos) e talvez a origem da hoje tão presente informática. A princípio, nossa dupla amada encontra um grupo de cientistas matemáticos avessos à invenção daquela máquina que resolveria facilitar a resolução dos mais difíceis cálculos e equações. Os matemáticos viam tal experimento como uma conspiração e temiam ficarem sem emprego, vez que, teoricamente, maquinários como aquele substituiriam a ação do homem. Gostei da trama ter abordado com ênfase a importância que a matemática possui nos dias de hoje, deixando bem claro que a tecnologia avançada que temos, os algoritmos que tanto se falam em postagens da Internet e os equipamentos avançados de última geração não substituem a mão de obra humana. Pelo contrário, só são possíveis graças à matemática. Confesso que eu não fazia ideia de relacionar matemática com a velocidade da Internet, transmissão do sinal da TV, atividades tão condizentes de nossa vida comum. 

Explorando Talentos Ocultos - Horácio hipnotiza Pateta e resolve tirar proveito de suas habilidades desenvolvidas. Achei Horácio malandro e de má fé, mas a HQ é muito boa.

Vulgo Vulto - Pateta é confundido com um ladrão que comete crimes antes mesmo dos outros ladrões que, com raiva de serem sequencialmente sabotados, querem dar um fim nele. Foi divertido ver Pateta encontrando facilmente o tal bandido que se escondia com frequência. HQ nonsense que fecha com chave de ouro essa edição.

O balanço que faço destas três revistas, no geral, é que todas são excelentes. Poderiam se encaixar como n° 1, perfeitamente, embora eu ainda penso que o reinício dessa numeração merecia um número 1 especial, pois foi um fato histórico após 68 anos de publicações ininterruptas pela Abril. A equipe preguiçosa preferiu fazer um jantar de gala para eles mesmos e seus cãezinhos de estimação a realmente esquentarem a cabeça e colocarem a mão na massa em busca de produzirem uma homenagem de verdade ao leitor. Aliás, eles não se importam nenhum pouco com o leitor, pois é visível a falta de educação com que agem, assim como a falta de responsabilidade em cuidar da própria linha de produção que, ao meu ver, já nasceu morta com um n° 0 comum, ofuscando de vez o brio das n° 1 e negligenciando a própria produção até hoje, dia 3 de Setembro de 2019, quando vemos que nada de novo foi colocado nas bancas após essas edições n° 3. Deve ser muito boa a "transação financeira" por lá, porque não tem como pensar em outra coisa, já que a editora não está colocando seus produtos à venda. Ninguém se sustenta apenas de ar. Mas isso nem me interessa.

As revistas n° 3 são, de fato, muito boas. E que bom, pois publicar boas mensais é o básico do básico nessa linha de produção. Não estão fazendo mais do que a obrigação. Espero que o nível das HQs continue excelente e que resolvam colocar logo seus produtos à venda nas bancas de todo o Brasil, pois, ao contrário do que acreditam suas mentes acomodadas no assento estofado da poltrona, à espera de elogios, a banca ainda vem sendo o principal meio de venda dos quadrinhos Disney.  

terça-feira, 1 de outubro de 2019

[Miniconto] OH, BIANCA!


Bianca adentrou o apartamento. A primeira coisa que fez foi dirigir-se à minúscula cozinha e servir-se de um corpo d'água gelada.  Olhando a mesa de vidro redonda, percebeu um bilhete.  Apanhou-o, leu e saiu correndo.

O elevador estava à  espera, mas o ímpeto  de não  parar a fez preferir as escadas. E  assim Bianca foi subindo o quanto pode, tentando avançar na velocidade da luz. Ela era apenas um ser humano e estava otimista em alcançar logo a cobertura.

"Este prédio está  ficando grande demais para mim", concluiu, ansiosa por saber ter muito mais a percorrer.

Exausta, chegara ao topo. À laje do terraço. Ali ela avistou, em meio a cabos de aços e antenas de TV por assinatura, a grande caixa de água e outras dependências destinadas à  manutenção, em um espaço livre que mais se parecia com um grande quintal, o seu namorado, a pessoa responsável por todo aquele sacrifício.

"Posso saber o que pretende?", ela gritou, mantendo-se a uns 3 metros e resistindo ao forte deslocamento de ar que parecia natural naquele lugar.

"Até que enfim você  chegou, Bianca. Estou te esperando há  um tempão", ele falou, sem se virar para ela..

"Saia já  dessa beirada, Tomás.  Se você tiver algum tipo de vertigem, já  era. Vira paçoca lá  embaixo."

Ele se virou para ela,  encontrando-a pálida, assustada, aflita. Ele, por outro lado, permanecia seguro de si.

"Vem pra cá, Bianca", estendeu os braços à  sua espera. Ela não foi. Estava preocupada.  E se ele se jogasse consigo?

Tomás subiu no parapeito e saltou para  o  mergulho que mudaria para sempre não  apenas seu destino, que acabara de ser interrompido, mas o de sua namorada, que peitara a família, há seis meses, porque seus pais não incentivaram sua ideia de deixar o ninho para morar com Tomás. Eles pareceram prever a fragilidade daquela alma que, nos encontros familiares, nunca demonstrara abatimento, indignação e cansaço.  Era sempre um bom rapaz que sorria a todos e sobre todas as coisas. Bonito, carismático, um homem de paz, mas Tomás não era bom trabalhador. E esse motivo parecia decisivo para que seus pais desencorajassem o desenvolvimento dessa relação.

Bianca desceu para o térreo, em estado choque. Não  sabia o que fazer, o que sentir. Seria o certo gritar, espernear e se descabelar feito louca? Por que agia como se nada de grave tivesse ocorrido?  Será que ele tinha morrido mesmo?

O elevador a deixou em frente a portaria já tomada pela multidão na calcada. Curiosos dos mais variados tipos apontavam uma só direção: o corpo morto no chão.  Muito sangue. Talvez múltiplos ossos quebrados.

Ela nem precisou lançar-lhe um último olhar. Sabia que era ele. Já tinham se despedido, lá  em cima.

Estava triste. Mas não conseguia chorar. Parecia que tudo aquilo era destinado a outra pessoa, que não dizia respeito à ela.

Um homem se posicionou ao seu lado. Cruzaram olhares.  Como se o conhecesse, ela o abraçou.

"Tome estes pães", ele mostrou o pacote.

"Vou subir", ela falou, sem apanhá-lo. "Você  me acompanha?"

"Tudo bem", ele a conduziu ao interior do prédio.

Entrando em seu apartamento, Bianca dirigiu-se à cozinha e serviu-se de água  gelada.  O homem acomodava o saco com os pães em cima da mesa de vidro redonda quando ouviu-a dizer:

"Não, não!  Venha até aqui!"

Calado e estranhando aquela reação, o sujeito obedeceu. 

"Toma! Pra você.", ele disse, direcionando-lhe o saco.

Bianca deu um último gole no copo d'água e apanhou o saco. E não soltou mais dele até que tremessem as pernas suadas daquele homem.

----------------

Oh, Bianca!
Autor: Fabiano Caldeira