quarta-feira, 27 de novembro de 2019

[Livros] Reciclável: Acomode-se ou Recicle-se

"...Nunca soube se minha mãe tinha algum sonho. A vida dela era apenas arrumar a casa, lavar roupa, fazer comida e poucas vezes esboçou traços de felicidade. Dessa forma cresci sem desejar muita coisa além do necessário. Eu não podia medir forças com uma sociedade feroz que exige o tempo todo perfeição, que oprime quem não se enquadra nos padrões dela e depois vem com um discurso de que está preocupada com os menos favorecidos..."
Este e-book de autoria de Marcos de Sá possui pouco mais de 240 páginas e conta a história de João Victor em seu emprego, ainda em fase experimental, no Portinari (colégio particular de ensino fundamental). João Victor emociona-se em seu primeiro dia porque muitas lembranças tomam conta de sua mente. Eram lembranças de quando ele era um pingo de gente e estudava ali porque seus pais acreditavam que o ensino particular era investimento certo para seu futuro. Essa "viagem" toda faz com ele fique relapso em suas atividades, causando má impressão na diretora, a Sra, ou melhor dizendo, Srta. Margareth, uma coroa loura de padrão exuberante e fina estampa que diz nunca ter se envolvido amorosamente com ninguém, por isso faz questão de ser chamada de senhorita, em vez de senhora. Nesta trama também se destacam a Sra. Esperança, a Profa. Miranda e o Prof. Evangelista. Gostei como Esperança e Evangelista vão crescendo ao longo da trama, transmitindo mensagens de reflexão enquanto lemos.

Vamos conhecendo a rotina dos primeiros dias de João Victor e, com isso, participando de fragmentos marcantes de sua memória infantil ali e em sua antiga casa, com sua família marcada por sérias dificuldades econômicas e frustrações, ao mesmo tempo que o vemos lidando com o presente e a criançada atual que não é fácil, como o Enzo, o Diego e a Juliana, por exemplo, mas também há o Caio, um jovem mais velho que está no último ano do ensino médio e foi inserido no contexto de realizar o que seria um dos maiores sonhos de João Victor. 

O papel dessa obra é o de oferecer reflexões íntimas sobre nossos valores e as questões da vida. João Victor poderia estar exercendo sua profissão de biólogo, mas acabou sendo porteiro do colégio onde estudou. Ele viveu exclusões por ser muito pobre e introspectivo, convencendo-se de que era um patinho feio ou um projeto que não deu certo, só que ele se deu conta de que também discriminava e agia com preconceitos e era assim desde criança, quando não gostava da presença da coleguinha horrorosa que volta e meia vinha pro seu lado. Atualmente, não gostava do estilo diferente do Prof. Evangelista. Embirrava-se com o fato dos óculos escuros dele quando, um dia, descobriu que o cara tinha estrabismo irreversível, o que explicava não apenas os óculos, mas outras esquisitices. João Victor começou a perceber-se dentro do contexto global de um mundo melhor. Queremos tanto que o outro seja mais agradável, tenha respeito ao próximo, discernimento, menos preconceito e mais compreensão, mas não percebemos que nós mesmos também somo falhos, que temos questões que precisam ser melhoradas. Então, a mudança que gostaríamos de ver deve começar por nós mesmos em nossa maneira de encarar as coisas. 

Gostei muito dessa história, pois me identifico bastante com a trajetória difícil do João Victor e seu sonho frustrado, a descrição dele de como se sentia diante das circunstâncias. Teve momentos que meus olhos suaram. E a vantagem de ler em aplicativo é que o tempo voa de tal forma que não sentimos o tamanho da fila da lotérica nem a demora do ônibus e do trajeto de volta para casa. Ninguém nos olha com curiosidade ou como um E.T por estarmos com um livro enorme na mão, pois, para todos os efeitos, é apenas um celular. 



Agora vem um momento chato e constrangedor, pois também sou escritor e sei que tenho muito a melhorar, principalmente porque cometo erros no decorrer do conto ou romance, então é complicado apontar esse tipo de coisa, mas sinto que não devo ser omisso, senão a pessoa vai querer ler também essa obra e poderá se deparar com esses erros e se sentir um(a) leitor(a) traído(a) por mim, que não falei nada. Mas diante das inúmeras vezes que aconteceu, eu preciso dizer que me irritaram ao longo de todas as passagens o seguinte:

"SAIR" quando na verdade é "SAÍ" e "SAÍ" quando é "SAIR"
e demais palavras terminadas em "IR" trocadas por "I" e vice-versa
"SE ALIMENTAR" quando é "ME ALIMENTAR"

Há outros exemplos como "COLOCA-LO", "PEGA-LA",esse tipo de coisa que procuro não considerar porque, a meu ver, nem eu mesmo sei se está certo assim. Costumo acentuar a vogal antes do hífen e pode ser que o erro seja meu (acabei de escrever "ífen" e o corretor automático colocou o "h". rsrs...), então eu ignoro esta questão pontual, mas os exemplos acima são de cortar o coração, porque o autor escreve muito bem, tem uma narrativa fluída e emociona a gente. Ele tem o dom de escrever, só que parece que tudo foi feito com um corretor automático que foi mudando essas palavras sem que ele percebesse. 

Essa obra, se tiver uma devida atenção, eu penso que pode até ser negociada com uma editora de livros físicos e paradidáticos, que são aqueles inseridos nas bibliotecas escolares, vez que o enredo apresenta com veemência a rotina escolar, o comportamento dos jovens, uns para com outros, e faz refletir sobre bullying e discriminação. 

Talvez, suponho que nem o próprio Marcos de Sá tenha percebido a qualidade da sua criação, o que é uma pena, pois as pessoas podem desistir da leitura quando começam a perceber essas "características" frequentes no texto. Alguns leitores agem dessa maneira com escritores desconhecidos, principalmente quando se trata de e-book. Quando eles percebem que a escrita foge do padrão "profissional", abandonam o título e até publicam comentários maldosos. Por outro lado, descobri publicações com números bastante expressivos de leituras e comentários positivos, mesmo contendo aspectos semelhantes aos que me referi aqui. Então fico confuso e não sei o que pensar. Será que estou agindo com certa discriminação em relação a esse assunto? Os leitores de e-book não dão mais importância a um texto "perfeito"? Será que preciso mudar meus conceitos? Se a resposta for sim, peço perdão por ter trazido esse detalhe desagradável à tona. Estou me adaptando às modernidades desse meio literário e confesso que gosto dessa escrita mais crua, que revela características narrativas do autor. Na verdade, acho até bom pra mim, já que sou mais um nesse mundo dos novos escritores renegados por editoras e que agora buscam um lugar ao Sol através de Google, Amazon, Wattpad etc.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

[Quadrinhos] A Pantera Cor-de-Rosa em: Fortuna Cor-de-Rosa

Nada melhor do que uma vida mansa e cheia de dinheiro, não é mesmo? A Pantera Cor-de-Rosa deve ter pensado isso quando viu a notícia de que um gatinho doméstico herdaria milhões e, ao se ver no mundo, sem lenço nem documento, tratou de comprar uma coleira para se passar por felino doméstico e se embocar na primeira mansão classe A que viu pela frente, com a finalidade de convencer os figurões a adotá-la.

De início, ela encontra dificuldades em entrar, devido a um cão bravo que apareceu de repente. Mas logo ela encontra um homem tomando sol à beira da piscina, aproxima-se e procura convencê-lo a se tornar seu "pai". O cara até gosta da ideia, deixando a pantera toda feliz, só que, de repente, ele fica apavorado e diz que está chegando a hora. A pantera se lembra da notícia do herdeiro felino e entende que era a hora dele morrer, então logo diz que vai pegar lápis e papel para que ele faça seu testamento, mas o sujeito diz que não se trata disso e que precisa urgente apanhar suas coisas e sair, o que faz a pantera entender que ele vai fazer uma viajem e começa a questionar qual o destino, na certeza de que seria um turismo internacional. O cara se troca rapidão e aparece com roupas bem simples, apanha suas coisas de qualquer jeito e esclarece que estava na mansão de penetra, desfrutando de tudo até a hora em que os donos chegassem, mas, como ele era um forasteiro, tinha que sair às pressas. 

A história acaba com a pantera fugindo junto com o indivíduo, inclusive carregando uma trouxinha de coisas que seriam o quê? Pertences da mansão? Roupas ou objetos de uso pessoal do sujeito que a "adotou"? Porque ela carregava aquilo, nunca iremos saber. Talvez o propósito foi apenas mostrar que ela estava fugindo com o cara, que era cúmplice naquela situação. Pelo desenho no último quadrinho, tudo indica que eles pegariam um trem... como forasteiros.

Essa trama é bem anos 80 e reflete algumas situações que hoje não tenho certeza se seriam colocadas: a pantera pega o jornal do lixo, ela mesma vai a uma loja e compra uma coleira, como se fosse a coisa mais normal do mundo uma pantera chegar em um estabelecimento de animais, como se ela própria não fosse um, e depois ela invade uma casa de alto padrão e o cão de guarda frustra sua ação, mas ela invade de novo (ou seria outra residência? não fica claro esse detalhe) e encontra um homem que já a tinha invadido antes dela, e ambos ficam super de boa, afinal, invadir propriedade deve ser gostoso. Por fim, até o último quadrinho nos remete a um mau exemplo: entrar de penetra em um trem já em movimento. Sem contar o enredo: a pantera se passar por bicho de estimação só para ter vida boa, ou seja, mostrando que é uma possibilidade ter luxo e mordomia enganando, trapaceando, dissimulando. É... Acho difícil a produção desse tipo de conteúdo hoje em dia. Agora, cá entre nós, sendo sincerão na lata, nem nessa época esse tipo de HQ agradou.

"Fortuna Cor-de-Rosa" foi publicada na revista da Pantera Cor-de-Rosa n° 74, em Maio de 1985 pela editora Abril, a editora historicamente conhecida pela criação de HQs bem incorretas, seja nesses quadrinhos de desenhos que passavam na TV ou em Lulu e Bolinha, Disney, turma da Mônica, em todos esses núcleos havia conteúdo que seria rejeitado atualmente. Não que eu me importe com isso. Sempre digo que a era Abril foi a melhor. Porém, se analisarmos friamente esses roteiros, teremos que reconhecer que não eram nada educativos. Muitas situações absurdas, estúpidas e até brutais foram inseridas nesses gibis.

A HQ está completa. Se lerem tudo, perceberão que a pantera é macho, pois fica evidente em alguns balões.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

[Quadrinhos] Zico e Zeca: Jornada dos Esportes

Quero compartilhar uma historinha de Zico e Zeca, os sobrinhos do Zé Carioca, intitulada de "Jornada dos Esportes".


Zico e Zeca jogam futebol quando a bola vai em direção a um vizinho que está em seu portão. A porta atinge em cheio sua boca e ele começa a reclamar que é perigoso praticar aquele tipo de esporte ali. Acontece que o homem entra e leva a bola deles consigo. 

O filho mais velho dele vê a garotada lá fora e resolve zoar um pouco. O rapaz era daqueles que se gabava por ser mais alto do que os demais de sua idade e se achava mais inteligente, inclusive para o esporte, chegando a dizer que achava o futebol um esporte primitivo. Ele ainda caçoa de Zico e Zeca, por causa do tamanho deles, alegando que o futebol que eles deveriam jogar era o de botão. 

Os meninos dizem que também jogam basquete e que aquela garotada toda formaria um time e disputaria uma partida de basquete com ele. O rapaz topa, já ciente de que ganhará fácil, mas os meninos achem com violência proposital, detonando a casa do vizinho para que ele percebesse que qualquer esporte pode ser perigoso e que não era legal implicar com o futebol como se fosse inferior.

Na verdade, o que Zico e Zeca queriam mesmo era apanhar a bola deles de volta. Naquela situação descontrolada, a bola foi encontrada e, com isso, a garotada deu no pé. E a família daquela casa saiu correndo atrás deles, furiosa pelo prejuízo que tiveram.

Essa trama me faz lembrar dos meus tempos de criança onde tínhamos os famosos campinhos para jogar bola. Hoje, residências foram construídas naqueles locais, então a molecada costuma disputar suas partidas no meio da rua mesmo. 

É legal se for pensar no lado da tradicional brincadeira de rua que se mantém, pois dizem que é saudável correr lá e cá no meio da rua, interagir com os colegas em um contato real, corpo a corpo, olho no olho. Por outro lado, as crianças de hoje já não são tão pequeninas e fracas. Elas chutam forte, não se preocupam se a bola estraga o portão ou quebra o muro de alguém. Exatamente o que mostra nestas páginas, onde a atividade saudável vira um transtorno e causa prejuízos. E tudo por motivo fútil. Nos quadrinhos, até pode ser engraçado. Na realidade, isso não é nada bom.


terça-feira, 12 de novembro de 2019

[Livros] A Vida Que Deixei Para Trás

Para adquirir este e-book
www.amazon.com.br/dp/B07J57SQWL

Conhecida pela obra "Uma Mentirinha Pro Meu CEO" e divulgando seu novo romance: "Nos Passos de Jess", resolvi conhecer sua obra "A Vida Que Deixei Para Trás" e é dela que vou falar agora. 

Beatriz, Noah, Caíque, Adriana, Claúdia, Natasha, Priscila, Arthur, Amanda, Felipe são todos alunos do CAV - Colégio Aprendendo a Viver. Além disso, moram no mesmo condomínio de casas de alto padrão. A trama toda se passa nesses dois lugares, o CAV e o condomínio. 

Beatriz, ou melhor, Bia, vai morar com os tios e passa a estudar no CAV. Cláudia é sua prima e, logo de cara, não há sintonia entre elas. Cláudia a deixa de lado, não a coloca junto de si e suas amigas Priscila e Natasha. Depois que Bia conhece Noah, a rivalidade só aumentou, porque Noah era o garoto mais visado do condomínio. Aquele cara popular ao extremo que quando fala "A", todas as mulheres param tudo e lhe dão atenção, fazem  o que ele quiser. 

Noah encabeçava um time de vôlei e tinha planos de viver do esporte no exterior. Ele já tinha ficado com várias daquelas garotas, com algumas até engatou um namorico, mas nunca chegou a conduzir para algo sério. Partia o coração delas, mas elas continuavam em cima, feito cadelas no cio. Sim. Pode parecer ofensivo escrever isso, mas essas meninas se resumiam a cadelas no cio, de fato, pois se atiravam descaradamente em cima dele e sabiam morder quem se colocasse no caminho. Compreendo bem isso, por serem personagens com seus 16/17 anos e se encantarem com o grande garotão atleta, loiro e lindo que já tinha até morado nos EUA e por isso tinha aquele sotaque o qual muitas se molhavam quando ouviam. Adolescentes mimados e seus hormônios. Ai, ai... A burguesia fede (Cazuza). 

Bia também é boa no vôlei, mas seu comportamento é o oposto das demais. Ela não fica se arrumando em demasia, não quer ser vista como "a gostosa", seu foco eram os estudos, por isso ficou amiga de Adriana, Amanda, Felipe e Arthur, pois eram quem tinham mais interesse nas aulas. Porém, o fato de ela ter personalidade retraída e ser excelente no vôlei fez com que Noah se aproximasse, tornando sua vida um inferno.

A obra é bem extensa, contém mais de trezentas páginas, mas a narração da autora me fez querer saber o que aconteceria depois, então não senti o peso dessas centenas porque fiquei bastante interessado nos relatos em primeira pessoa de Beatriz. 

Alguma coisas me irritaram: 

Beatriz era muito sensível, tudo a abalava, ficava passando mal (náuseas, vômitos, agonia) com frequência e isso se intensifica de acordo com a evolução da coisa toda. 

Noah, por sua vez, era estúpido (não no sentido de violência, mas de fazer com que a Bia se sentisse atingida no seu emocional), um idiota que se achava acima de tudo e de todos, afinal, tinha seu público de putas patricinhas que o botava no pedestal e idolatrava cada arroto expelido (para não dizer coisa pior). 

Talita era tia de Bia, por isso ela só aparecia no núcleo do condomínio. Talita era sempre boazinha demais, compreensiva demais, nunca cometia excessos, sempre a senhora bondade com controle psicológico acima de qualquer ser humano comum. Por isso, adorei quando ela finalmente impôs uma restrição à Bia. 

Coisas que amei:

A riqueza de detalhes nas partidas de vôlei mostra que a autora tem domínio sobre o que escreve. Isso fez muita diferença para que eu continuasse a leitura, pois deu credibilidade à obra. 

A dupla Adriana e Caíque: a personalidade de Adriana foi interessante. Já vi pessoas como ela. Eu preferia ter lhe dado um final feliz, mas adorei também a realidade. Sad but True (Metallica).

Em geral, as situações envolvendo as turmas de adolescentes reunidas, as reações de uns para com outros quando estão na praça do condomínio, na festa, na quadra da escola, são momentos em que me identifiquei. Eu conseguia me imaginar como alguém por perto que observava tudo aquilo acontecendo à minha frente. 

E o mistério em torno de Bia, que me fez compreender as coisas que me irritaram.

"A Vida Que Deixei Para Trás" é uma história bem feita do começo ao fim. Eu teria produzido a capa colocando um girassol e a frase de efeito que determinou o fechamento da trama "Seja um girassol na vida de alguém", embora compreendo que o diário tenha sido fundamental.


domingo, 10 de novembro de 2019

[Quadrinhos] As Bebês Gêmeas e os Leitores Algodão-Doce


Estava, ontem, cansadaço por ter me dedicado a um compromisso importante durante toda a tarde, quando entro em um grupo do face dedicado a compartilhar quadrinhos. Ali, tinha uma postagem super educada de alguém que estava proponho barrar postagens de HQs de cunho político. Não tomei aquilo como ofensivo diretamente à minha pessoa, mesmo tendo colocado a tirinha acima no grupo há pouco tempo. Mesmo assim, fiquei indignado com a proposta que nada mais foi do que um gesto fofo e carinhoso e de censurar colegas. 

OK, eu não conheço ninguém dali, mas acredito que tal postagem tenha acontecido porque tenha havido postagens a respeito. Em solidariedade a quem nem conheço, me manifestei e chutei o balde mesmo. Chamei de cuzões os organizadores daquele lugar, pois, na época dos assassinatos dos cartunistas do tal jornal francês Charlie Rebdo, muitos deles manifestaram sua tristeza e seu apoio aos cartunistas, mas agora, por muito menos, querem proibir as postagens. 

Ora, ora... Quer dizer que é lindo apoiar os desenhistas da França, mas é proibido fazer o mesmo com os daqui? Que "classinha" oportunista é essa, meu irmão?

O brasileiro precisa entender uma coisa: uma HQ, um livro e um quadro são três tipos de manifestações pacíficas de expressão em forma de arte. Elas não têm seu som incomodando a vizinhança no último volume. Elas não vão se infiltrar dentro de sua casa, não vão te encontrar na calçada e sacar uma arma para você ou te constranger porque estão bêbados e sem noção. O máximo que elas fazem é lhe permitir pensar sobre aquilo. Você vai absorver o conteúdo e decidir se gosta ou não. Então não há motivo, razão nem circunstância para censurar esses três tipos de arte que não estão pichadas nos muros de ninguém. 

Pessoa nenhuma se torna racista, terrorista, homofóbico ou psicopata porque viu um quadro, leu um livro ou uma HQ sobre esses assuntos. 

Para essas questões, o povo precisa reivindicar mais segurança e também investimento em saúde mental. Senão, chegará uma hora em que um círculo qualquer será ofensivo, um triângulo de cabeça pra baixo será satanista e criminoso. E não é assim que as coisas realmente são. Censurar, proibir essa arte pacífica e silenciosa não contribuirá para um país melhor; contribuirá para uma ignorância maior. Há certas coisas não deixam de existir apenas porque não as vemos. Tornam-se mais fortes porque não são vistas.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

[Livros] Capas Interessantes - Céu, O Lar Dos Imperfeitos

Faz tempo que não postava algo nas "Capas Interessantes", apesar de sempre ver várias capas interessantes de livros e gibis. A finalidade é apenas compartilhar uma imagem e uma ideia a respeito. 
A princípio, achei que era um romance espírita, mas parece que a obra aborda vários tipos de situações dramáticas em forma de contos, todos escritos por um só autor: Adriano Piechmienski, especialista em filosofia e sociologia.

O livro está em sua fase de lançamento e a editora Selo Jovem o disponibiliza a um preço bem legal. Caso se interesse, clique aqui e depois procure em "lançamentos". Mesmo tendo me enganado sobre o teor, continuo achando essa capa interessante.


domingo, 3 de novembro de 2019

[Miniconto] ANA SEM DOR



Ana era uma mocinha bonita, ainda bem novinha. Toda sorridente, não sabia o que era dor. Não se tratava de querer sentir, e nem de saber fingir. Ela simplesmente não possuía em seu organismo tal mecanismo. Por isso era mais fácil sorrir. E essa ausência de sofrimento representava um perigo.

Um dia, enquanto cuidava do chiqueiro, na fazenda onde morava, os porcos enormes se aproximaram, formando um cerco. Ana, sempre tão gentil, via-os como grandes cães carentes. O chiqueiro era uma comunidade solitária. Faria bem a eles um pouco de calor humano, sentimento de gente.

Ela não sabia, por causa da pouca idade que tinha e a falta de malícia na vida, que os animais não estavam tão afetuosos assim. O que ela pensava ser carinho, eram mordidas de fome, enfim. 
Como seu corpo não sentia dor, não teve motivo para sentir pavor. 

O cerco cada vez mais se fechava.  Ana já se irritava. Finalmente, ao ver seu próprio sangue escorrendo, atentou-se ao que de fato estava acontecendo. O desequilíbrio a levou ao chão. E toda suja de lama, Ana virou refeição.

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ANA SEM DOR
Autor: Fabiano Caldeira