domingo, 5 de julho de 2020

[Quadrinhos] O Planeta Sughis Mundus

Cascão é detestado pelo sua sujeira. Ele cheira mal, não toma banho e foge o quanto pode de água, seja ela da torneira, do chuveiro ou da chuva. Aliás, ao sinal de nuvens nebulosas, ele corre pra casa. Há casos extremos onde o vemos como apreciador da poluição e chegando a considerar poética a imundície que vai chegando e tomando conta de tudo. Sendo esse traço de sua personalidade um caso de demência, transtorno ou apenas capricho, eu o tenho como personagem mais interessante da turma da Mônica, criada pelo Mauricio de Sousa.

Gosto dessa distopia toda que chega a ser uma forma de rebeldia e transgressão ao sistema que todos adotam como normal. O fato de que nem todo mundo segue as regras do jogo como são propriamente ditas. Nem todo mundo quer ser como todo mundo. E está tudo bem. Pelo menos no desenho, está tudo bem ser diferente dos coleguinhas. Em contraponto, é explícito o preço a se pagar (amiguinhos passando mal quando estão perto demais ou fugindo para não abraçá-lo no calor, falando mal, querendo limpá-lo à força) por viver sob suas intensas convicções e fazer questão de não se render ao lugar comum de todo mundo. Também vemos que isso não o fez um eremita e que, apesar de nem sempre ser tão bem-vindo assim em determinadas situações, os amigos aprendem a conviver com ele exatamente do jeitinho que ele é. E até gostam. 

Nos dias de hoje não existe mais esse Cascão. Ele agora toma banho, sai na chuva e fala como é bom um mundo sem sujeira. Aliás, muita coisa foi mudada na turma toda, em quase todos os núcleos de criação do Mauricio de Sousa. Confesso que aprecio o material de antes. 

É no material de antes que aprendemos a lidar com as diferenças e, ao mesmo tempo, encarar as escolhas que fazemos e com o que somos. A Mônica, mesmo intolerante e bruta, era símbolo de força e resistência contra a opressão. A Magali era o sonho de todo mundo: poder comer o mundo e não engordar. O Cebolinha era o menino que se achava perfeito, por isso tirava onda com todos, principalmente com a Mônica (cuja aversão, na verdade, era paixão enrustida) e o Cascão. Cebolinha sempre se achava o máximo, o mais inteligente, o mais legal, o mais tudo...sendo que era apenas um moleque chato e à toa. Titi era namorador. Bem jovem, tinha a Aninha como namorada oficial, e também todas as outras que caíam em sua rede. Pipa, Thuga e Dona Cebola eram gordas. Rolo era enrolado e Rubão era conservador e machista. Enfim, eu gosto é dessa diversidade toda. Por isso aprecio as produções anteriores ao ano 2000.


A história que vou compartilhar se chama "O PLANETA SUJHIS MUNDUS", está completa, tem 18 páginas e foi publicada pela primeira vez na abertura da revista Cascão n° 14, da Editora Globo, em Julho de 1987, ou seja, há exatos 33 anos. Olha que idade bonita!

Cascão é apresentado aos leitores com suas características de imundície e por isso é menosprezado e até hostilizado por muitos. Em uma circunstância curiosa, ele é descoberto por seres extraterrestres e levado para ser o líder do planeta deles -- o planeta SUGHIS MUNDUS que tem uma população de porcos antropomórficos que se encontra em um momento político e social complicado, pois há um grupo de pessoas querendo se rebelar contra o sistema estipulado pelo líder atual que preza pelo controle de todos através de ordens e normas que promovem cuidados ao meio ambiente e com a saúde. Esse grupo radical tem a certeza de que Cascão é o líder de que seu povo precisa e por isso o levam ao seu planeta onde é empossado rei e dá início ao sistema com liberdade total, colocando por terra todas as medidas anteriores. 

No início, a novidade é bem aceita. A população se convence de que aquele novo sistema é o ideal, pois eles vivem sem se preocuparem com a importância devida de que é necessário focar em respectivas coisas. Não importa o quão sujo, bagunçado e insalubre esteja se tornando o ambiente em que vivem, desde que eles sejam livres. Em pouco tempo, esse conceito anarquista mostra suas consequências. A qualidade de vida das pessoas cai, algumas ficam estressadas sem causa aparente, doentes e começam aparecer aquelas que se machucam porque caem, escorregam e se ferem com tanta bagunça e desordem.

Cascão começa a ser cobrado. A população quer ter garantida sua liberdade de sorrir e ser feliz a todo momento, mas somente às custas do sistema, ou seja, o governo que tem que se virar para garantir um ambiente propício para que vivam bem, sem que eles sequer se preocupem com as noções mais básicas e particulares como arrumar a própria casa, cuidar de manter limpo onde vivem e transitam. É tudo muito unilateral, sem conscientização de que todo mundo é um pouco responsável pelo bem-estar uns dos outros e que a verdadeira liberdade anda de mãos dadas com a responsabilidade. 

Cascão vai embora, praticamente um fugitivo do povo, isentando-se dos compromissos que dele eram esperados. Leva consigo seus ministros que, como ele, se recusavam em adotar medidas e estratégias para o bem da população. O planeta volta ao sistema de antes e, dessa vez, com total apoio da população que entendeu o seguinte: liberdade com anarquia é uma fria; liberdade com responsabilidade é uma vida de verdade.

A historinha tem seu final feliz. Cascão volta para casa. Os ministros porcos ficam com ele porque sabem que ele é sujo, então vão se sentir bem ao seu lado. Porém, os três aparecem (no último quadrinho) sendo obrigados a limparem toda a sujeira que proporcionaram.

Nessa trama vi um planeta onde os seres não tem consciência do que é senso crítico e bem-estar coletivo. Tiveram que chegar ao extremo do caos para darem-se conta de que estiveram errados em se rebelar contra um sistema que só queria um pouco de ordem, que os cuidados básicos com a saúde são essenciais para  manutenção da vida e que é com cada um fazendo a sua parte que se constrói algo melhor para todos. O radicalismo pode ser muito atraente, mas não é a solução. E não adianta ter o melhor governo se o povo não tem conscientização.

 

Essas duas propagandas eu quis compartilhar porque elas estiveram presentes em muitas edições. Tanto a Labra quanto o Instituto Universal Brasileiro eram anunciantes frequentes nas revistinhas da turminha durante vários anos de publicações delas, desde a Abril. Hoje, recordar essas publicidades é interessante. Um abraços a todos! Boa semana! 

14 comentários:

  1. Essa história é legal e até considerada grande pra época e por ser um gibi quinzenal. O verdadeiro Cascão que conhecemos e os traços muito lindos. Abraços.

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    1. Muito bacana. Na época, acredito, mexe com o imaginários dos jovenzinhos que se identificavam com o fato de pilotarem uma nave espacial e irem para um mundo só deles. E aos adultos fica o entendimento mais sério. Rsrs...

      Um abraço, Marcos.

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  2. Oi Fabiano.
    Gosto tanto de ver seu amor pelas historinhas porque parece que hoje em dia isso não existe mais. Eu nunca vi a questão do não tomar banho por esse angulo e achei interessante sua abordagem. Eu tive meus momentos Cascão na infância, mas minha mãe obrigava a tomar do mesmo jeito hehe.

    Prefácio

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    1. Oi, Silvana, nossos pais eram senhores de uma educação muito boa. Tenho certeza disso. Mantinham a gente com bons hábitos de higiene e leitura. Tem muita gente lendo quadrinhos sim, é que parece que o povo dos quadrinhos não se comunica muito com os leitores de livros. Mas ambos são adultos e gastam demais. Meu blogue parece ser um dos poucos que fazem essa espécie de ponte entre esses dois universos tão diferentes de leitura.

      Um abraço. Boa semana pra você e pra Olívia, sem rapazes frangotes em capa de livro pra nos decepcionar. Ah! Ah! Ah!

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  3. Com licença, Fabiano, tudo bem? Legal o teu espaço!
    Cascão 14 da Editora Globo tive quando criança e não me lembrava da HQ de abertura, obrigado pelo resgate!
    Destruí alguns gibis recortando as carinhas da publicidade da Labra, destruía e me arrependia depois de um certo tempo.

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    1. Oi, Xeclinghe! Tudo bem? Fui leitor de quadrinhos desde 1995. Depois fui parando aos poucos até que me vi passando longe de bancas e nunca mais lendo nada de quadrinhos. Voltei por volta de 2007, comprando uma edição aqui e outra ali. Entendo bem o lance de estragar os gibis, pois meu pai me ensinou a desenhar usando os gibis para eu passar a caneta em cima com a folha do carbono embaixo e o desenho saía no caderno. E os minicupons de promoções que a gente deveria recortar, eu recortei muitos deles e nem mandava. ahahaha... A única vez que realmente participei de promoções foi do sabão em pó OMO, mas esta não precisava estragar a revistinha. Era só recortar a lateral de três caixas OMO e trocar por um gibi Disney ou do Bolinha nas bancas.
      Nessa época dessa edição eu estava em vias de completar dez anos (28 de julho de 1977). Eu me lembro das capas das revistas que tive, mas dificilmente lembro do conteúdo das revistas. Daí, às vezes, eu releio pra saber o que eu nem dei muita bola naquela época. rsrs...

      Curioso que hoje em dia eu poderia fazer uma boa assinatura da turminha, porém o conteúdo das revistas de hoje está muito e muito e muito diferente do que eu estava acostumado a ver nos tempos antigos e... bem... eu prefiro o conteúdo de antes, por isso nunca fui atrás de assinaturas. É uma pena.

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    2. Seu comentário resposta me fez concluir que as promoções e concursos que rolavam antigamente nos induziam a depredar os gibis, principalmente os editados pela Abril, interessante! Dei um tempo nos quadrinhos da TM de 1998 até meados de 2012, comecei a colecionar gibis da Marvel em 1994 e só parei em 2001, de 2012 pra cá compro esporadicamente tanto Marvel antiga quanto TM clássica antiga, não consigo ler TM clássica atual, nem gibis de vinte anos atrás me interessam, TM editada pela Panini só compro os almanaques devido às republicações de histórias do século passado.
      Pensava que eu fosse o mais velho do pessoal da velha guarda que comenta no Arquivos e no Capas, sou de maio de 1978, diferença de menos de um ano, somos da mesma geração.
      Fabiano, lhe agradeço pela recepção e atenção, até mais!

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    3. Somos praticamente da mesma época. Fui apresentado aos quadrinhos desde muito cedo. Minha mãe trazia revistas finas e "baratas" porque ela não podia me comprar brinquedos. Os brinquedos eram caros, mesmos os mais simples, era mais caros que as revistas. E meu pai não ganhava assim aquela maravilha para me comprar sempre alguma coisa. Era apenas um gibizinho aqui e ali, uma voltinha no trenzinho. Tínhamos conta em uma mercearia onde eu deixava meu pai de cabelo em pé porque eu não tinha muita noção e comprava os cadernos mais grossos e as canetinhas mais caras e doces e chicletes de montão. ehehehe... Isso parou quando um dia o dono me falou que só me venderia se meu pai ou minha mãe estivesse junto. Não reclamei nem nada, mas é óbvio que não gostei. rsrs... Minha tia, irmã da minha mãe, trabalhava de empregada doméstica em casas de muito poder aquisito e me lembro que, de uma delas (chamada de "Mulher do Circo"), ela trazia gibis da Mônica e almanaques para seus filhos que já crianças eram rueiros e drogados, portanto, não ligavam tanto para leitura. Então eu aproveitava e acabava ficando com as revistas pra mim. Foi assim que conheci uma revista de lombada quadrada como Mônica e os almanaques. É claro que, com o passar dos anos, meu pai acabou se rendendo e me comprando algumas também.
      Como disse, conheci mesmo desde 1995. Eu gostava. Quando retornei, por volta de 2007, andei pesquisando em sebos e encontrei material de outros anos. Também vi por scans. Então tenho uma noção de que até o ano 2000, suponho, as revistas devem me agradar. Depois disso, a coisa foi ficando mais difícil, pois as HQs já vinham ficando diferentes demais. Seja bem-vindo! Pena que eu não aborde mais tanto os quadrinhos como fazia antigamente. Mas mantenho-me fazendo algumas postagens ao mês. Então venha sempre quando quiser.

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  4. "É no material de antes que aprendemos a lidar com as diferenças"

    Perfeita essa colocacão, Fabiano. Hoje, com toda a turma pasteurizada, não há espaço para reflexão sobre individualidade. Sem conta que são gibis chatíssimo.

    Sobre a liberdade, é isso: direitos e deveres.

    Ótima postagem.

    Abraços.

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    1. Obrigado pela presença e pelo comentário. Tenha um bom descanso.

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  5. Amigo eu acho fantástica a forma que você pega uma historinha e narra explicando conceitos, opiniões e tals. Essa história é um clássico. Foi bom revê-la aqui.

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    1. Olha, Marcelo. Deve ter um ser dentro de mim que me leva a escrever tanta coisa desse jeito, porque na prática eu sou bem diferente. Rsrs.... Gosto muito da turma da Mônica dos anos 80 e meados de 90.

      Um abraço, querido. Tudo de bom.

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  6. Oi Fabiano, tudo bem?
    Que nostalgia, eu leio Turma da Mônica até hoje, adorei a forma como você explicou essa historinha, parabéns. Vou ficar de olho por aqui para ver mais posts assim.
    Beijos!

    www.lostwords.com.br

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    1. Aline, seja bem-vinda. Gosto muito de quadrinhos. Há pouco tempo migrei para os livros, então não sou ninguém para ficar comentando muito sobre literatura, mas com os quadrinhos eu me sinto em casa. Venha quando quiser.

      Um abraço. Tudo de bom.

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