segunda-feira, 14 de setembro de 2020

[Quadrinhos] Chico Bento e os Defensores da Mata

Esta semana começou punk aqui onde moro. Incêndio pra todo lado. Em um deles, foi registrado pelo celular, em alta resolução, uma espécie de redemoinho de fogo que cresceu um pouco mais à medida que estava sendo filmado, como se uma forma de vida/energia soubesse e manifestasse sua potencialidade para ser registrada de fato. Acredito muito nisso, nas energias que nos rondam  nos circundam. Muitas delas são seres, talvez, um dia, seremos como elas, quando nos desencarnarmos.

Ribeirão Preto é sempre muito quente, seco e abafado. Mesmo no inverno, as temperaturas nestes quinze dias estão entre 30 a 37 graus durante o dia. Pra piorar, os incêndios nos canaviais e matas ao redor fazem com que fiquemos cobertos pela fuligem e mais poeira tóxica.

Estive procurando uma HQ em que a casa do Chico pega fogo. Eu me lembro que é antiga e que a cena nos passa bem o conflito do momento, consegue mexer com a gente. Como normalmente acontece comigo, não encontrei essa historinha específica, mas acabei lendo outra tão boa quanto e que também fala sobre a preservação da mata que compõe todo o bioma da Vila Abobrinha.

Nessa HQ, Chico está descansando na rede, à sombra das árvores quando é erguido subitamente por uma máquina, um trator. O operador tem todo um jeitão de brutamonte e fala que está ali para arrancar aquelas árvores e preparar o caminho para a nova estrada, que é um projeto da prefeitura e blá-blá-blá... Chico se mostra resistente e quer impedir o trator de avançar. No começo, com a ajuda do Zé da roça e do Padre, eles até conseguem atrapalhar, mas o operário não se sensibiliza e diz que vai cumprir seu trabalho, custe o que custar. 

Essa trama é da revista Chico Bento n° 5, publicada em 21 de Outubro de 1982, pela editora Abril. Naquela época, projetos de urbanização das zonas rurais vinham sendo bem recebidos e aplicados em nome do desenvolvimento e do progresso da nação, mas a voracidade com que as construções avançaram, ao longo dos anos, começou a atrair os olhares cautelosos sobre a questão do meio ambiente, toda a fauna e flora afetadas. E hoje, quando usamos a Internet e os robôs para diversos fins e só falta os carros voarem, ainda nos deparamos com o lamentável desmatamento e as precárias medidas de renovação do solo agrário destruindo tudo pela frente, sem dó nem piedade, em nome do progresso e desenvolvimento da nação. E ainda somos levados a pagar caro pela comida, sendo o Brasil um dos maiores países produtores (e exportadores) de alimentos no mundo, sendo o setor do agronegócio o único que não foi atingido catastroficamente por essa essa questão do Coronavírus. 

Aqui fomos submetidos a assistir imagens de vídeo de vários animais mortos em um desses lugares incendiados. Alguém mencionou cerca de trinta porcos e dez vacas. É claro que ninguém menciona os lobos-guarás, os gatos do mato, as cobras, os macacos, os gambás, os ratos... mas eles existem e, infelizmente, muitos também devem ter partido nas chamas da destruição. Quem sabe, um dia, quando esses animais silvestres começarem a atacar a população, já que não terão mais seu ecossistema e a respectiva cadeia alimentar, quando alguns acharem um bom negócio atacarem as colheitas, atrapalhando as produções do ano todo, quem sabe, assim, olharão com mais seriedade para essa questão. Quem sabe?

Sobre a historinha, ela está completa e é bem legal. Uma pérola dos tempos de ouro dos quadrinhos da MSP.. Também coloquei a propaganda da Chambourcy, já que a empresa não existe mais porque foi comprada pela Nestlê e, nessa época, seus produtos eram os mais gostosos (ou eu que era um pirralho e tinha um paladar maravilhoso, bem diferente de hoje, com meus 43 anos).

Abraços a todos. 


15 comentários:

  1. Também tenho a crença de que tudo que nos cerca é energia. As questões ambientais me sensibilizam muito, desde criança. Uma vez ouvi dizer que não devemos ser egoístas ao ponto de dizer que "o planeta pede socorro", pois nós é estamos destruindo a nossa própria casa; o planeta continua sem nós, mas nós não somos nada sem ele.
    Na cidade onde moro também é super quente e enfrentamos os mesmos climas. Por aqui também há muita queimada, principalmente de cana, e inclusive o governador do estado veio pras cidades próximas analisar um incêndio que saiu fora de controle. Vi na TV e pessoas entrevistadas que moravam perto do local relataram ouvir animais gritando enquanto eram queimados.
    https://www.abcdoabc.com.br/abc/noticia/sao-joao-boa-vista-governador-joao-doria-sobrevoa-pontos-incendio-108061

    Muito triste. Tirinhas que relatam um assunto delicado e extremamente sério.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. (escrevi rápido pq a bateria no notebook estava acabando kkkk desconsidere os erros e perdão se talvez tenha ficado confuso)

      Excluir
    2. No caso as matérias a que me referi, foram estas:

      https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2020/09/14/incendio-em-pasto-mata-45-animais-queimados-em-fazenda-de-miguelopolis-sp.ghtml

      https://globoplay.globo.com/v/8788502/

      https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2020/09/14/queimadas-na-regiao-de-ribeirao-preto-devastam-area-equivalente-a-serrana-sp-em-4-meses-diz-mp.ghtml

      E no meio de tanta coisa que se queimou, eis que aparece aí pelas tuas bandas o já tão queimado governador. É pra ficar tudo combinando.

      Excluir
    3. Sim, quis mostrar que aqui pro meu lado a coisa também está triste. Acho que pelo Brasil inteiro tá tendo muita queimada, principalmente agora que tudo está tão seco.

      Tá tudo combinando! Kkkkk

      Excluir
  2. Olá, Fabiano!

    Quando vejo essas postagens, recordo da primeira versão do Socializando.

    Adorei tudo o que você escreveu e, claro, ler a história na íntegra. Como o MSP se perdeu com tempo! Não havia revistinha ruim. Todas eram de boas para ótimas.

    Chambourcy era algo bem caro. Dá saudade em ver essas propagandas. É como anúncio da Estrela. Mas eram produtos caríssimos. Apenas com a vinda do plano Real e a proliferação de pequenas fábricas de laticínios, de brinquedos etc., é que grande marcas precisaram baixar seus preços para concorrer. E me pergunto sempre: eram produtos bons, mesmo, ou nossa memória os tornam bons?

    As questões ambientais sempre estiveram presentes em Chico.

    Você levanta vários fatos incontestáveis. Mas e aí, o que estamos fazendo? Compramos, consumimos, vamos a comércios que precisaram de toneladas de concreto, madeira, aço, couro e demais produtos. Consumimos carnes que precisam de pastos e grãos que só são plantados diante da derrubada de mata nativa. Os canaviais daí alimentam a indústria essencial do etanol, açúcar e fabricação de produtos sólidos biodegradáveis. A coisa é complexa. Aliás, nossas casas integram o fim da natureza. Não podemos abandoná-las, derrubá-las e deixar a mata crescer. O mal já foi feito.

    Penso que pedir aos “poderes” uma solução é impossível. Enquanto não mudarmos nossa forma de vida, isso continuará. E, meu amigo, acho que nada mudará.

    Como você sabe, não gosto de grandes cidades para viver. Olhando aqui as janelas de minha cozinha, só vejo matagal. E fico grato por isso.

    Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, meu caro! Concordo com você que a questão não é assim tão simples. Por outro lado, a evolução nunca se deu por conformismo pelas coisas simples. Simples é andar a pé e viver numa caverna e sair procurando algo pra comer por aí. Se o homem se acomodasse nesse viés, não estaríamos hoje com tantas facilidades e a ciência cada vez mais avançada e produzindo até mesmo alimentos melhores.

      Não estou dizendo para morarmos na selva e abdicarmos da modernidade. Estou dizendo que existem medidas que são tomadas alegando serem para o desenvolvimento humano quando, na verdade, não precisava ser exatamente como planejaram. Haveria outras formas mais viáveis de se executar a mesma coisa. Estou falando de crimes, invasões e o que é pior: a falta de consciência do ser humano que não está nem aí nem para o seu vizinho, que dirá para bichos que ele nem nunca viu? Aquele cara certinho que reclama do calor e da seca, mas joga a bituca do cigarro no matinho. Esse é o maior problema. O ser humano que não se importa com nada. Ele joga a latinha de bebida no chão, não liga se incomoda os outros, não está nem aí pra ninguém. Depois o tempo passa e o inútil vai reclamar do preço da carne, da falta de leitos no hospital, dos remédios caros e que sempre faltam no sus e dos animais esquisitos que deram pra aparecer por aí, na casa dos outos, de repente. Esse indivíduo que ostenta e perturba e depois vida um bosta e fica reclamando do sus, do governo e reivindicando direitos de uma existência cretina.

      Sobre a cana de açúcar e o etanol, deve haver alguma outra maneira de limpar tudo para uma nova colheita sem a necessidade de se tacar fogo em tudo. Eu sei que tem. Só não sei o que é. Mas é mais barato tacar fogo e poluir o ar e todo mundo respirar fuligem e partículas invisíveis que vão para os pulmões e dane-se as pessoas. O que me consola é que o ar vai pra todo mundo. Para os bons e para os maus. Ainda não conseguiram mudar isso.

      Exigir um bom senso e preservação não deve ser encarado como algo tão ruim, desde que saibam como fazer. O problema é que não sabem. Daí ficam dando muita importância pro vizinho que tem todo o direito de não querer uma árvore nova plantada na calçada dele, sendo que ignoram o que realmente importa, como impedir a devastação de grandes áreas, a manutenção que visa preservar os parques, as matas, a fauna e a flora, investimentos em ecobags e em combustíveis que não poluem etc.

      Bom, acredito que você há entendeu. Você hoje mora em um lugar tranquilo. Agradeça muito a Deus por isso. Um dia esse lugar pode não existir mais, em nome do progresso. Mas pra você, pelo jeito, ficará tudo bem... Espero que esse dia nunca chegue. Todos merecem sossego e tranquilidade onde se sentem bem. Ninguém merece ter isso tomado, furtado, terminado pela falta de noção de agentes mercenários que podem muito bem pensar em formas melhores de executarem seus projetos e manterem o bom senso entre desenvolvimento, progresso e preservação da natureza.

      Um abraço, querido. Desculpe o livro aqui. Foi tudo só pra dizer que estamos diante de excessos cometidos, seja por crime ou por falta de se importar com o outro. Ambos são excessos e radicalismo. Isso nunca é bom.

      Excluir
    2. Adorei o livro.

      E acho que isso resume tudo: "O ser humano que não se importa com nada". E falo por mim. Aqui em casa utilizo produtos que encontro à venda facilmente. Há opções mais ecológicas para tudo? Dizem que sim. Mas são o dobro do preço. Duvido quem pague mais caro por produtos "sustentáveis" e orgânicos. Isso é raro. Talvez alguns ricos, e que mesmo assim poluem bastante com seus carrões, viagens de barcos e avião, manter mansões etc.

      O lugar onde moro mudará. Está crescendo. Matas nativas são derrubadas para loteamentos. Eu tenho casa. Mas muita gente não tem e está querendo construir a sua.

      Tenho consciência de que não faço minha parte como deveria.

      Abraços!

      Excluir
    3. Você está enxergando a coisa com polarização, extremismo e radicalismo. Não é dessa forma que conseguimos um entendimento. Todo mundo sabe que é um pouco de nóia e exploração aquele marketing de pagar três vezes mais em produtos orgânicos porque são supostamente mais saudáveis. Digo "supostamente" porque, afinal, ninguém está lá, fiscalizando para atestar que realmente não há agrotóxico na terra, na água, etc. Ninguém está pedindo para usaram as bandanas do Greenpeace e muito menos viver um estilo natureba.

      Pra gente desfrutar d e tudo o que a gente gosta, é preciso ter em mente que deve-se preservar alguma coisa. Senão, todo mundo vai ficar sem nada. Vai todo mundo adoecer. E quem não adoecer será refém de predadores.

      "Em um sítio, vários animais morreram porque ingeriram veneno, mas os porcos pouco ligaram. A comida deles não era a mesma, nem a água, tão pouco dividiam o mesmo espaço. Então eles só pensavam "to nem aí, não é comigo mesmo". Até o dia em que foram ao abate, um por um, já que eram tudo o que restaram aos sitiantes que precisavam se alimentar."

      Um abraço, querido. Tudo de bom pra você e obrigado pela sua presença por aqui.

      Excluir
    4. Sou pragmático. Não faço minha parte. Nem vc. Quase ninguém. Relaxa, o mundo vai acabar mesmo um dia.

      Excluir
  3. Oi, Fabiano! Assunto sobre preservação do meio ambiente é sério e precisa ser tratado com mais atenção pelas autoridades, embora essas autoridades incompetentes nada fazem a respeito deste tema. Muitas pessoas não se atentam para a preservação das matas, e até agem como se não fossem responsáveis por deteriorar o pouco de verde que ainda resta no planeta. A tirinha mostra-nos claramente para nos atentarmos sobre este tema. Ótimo post. Adorei. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Luciano. Infelizmente, a polarização é um grande mal atual. Ninguém está pedindo para que as pessoas larguem suas vidas, tornem-se naturebas e gritem "viva o Greenpeace" e o U2. Apenas que vejam como é lastimável e muito triste ver hectares e mais hectares de mata sendo destruídos porque alguém jogou um cigarro ou quis "oxigenar" o solo assim porque é mais barato do que pagar caro em equipamento específico.

      Parece que se você não e ativista, você é inimigo da causa. Não é assim. Não sou ativista, não gosto e árvores na minha casa, mas fico triste quando vejo que o verde está sumindo. O verde que pode muito bem ser mantido e sustentado porque não está incomodando a vida de ninguém.

      É preocupante enxergar só preto e branco nessa situação. A vida é uma paleta de cores.

      Excluir
  4. Olá, Fabiano.
    É tão triste ver esse tipo de noticia. Eu até fico pensando se essa pandemia não é uma forma da natureza tentar fazer a humanidade acordar. Porque as pessoas não se importam mais. Aqui na minha cidade já faz mais de uma semana que estão pedindo para as pessoas não gastar a água a toa que estão baixando muito o nível dos reservatórios e é flagrante atrás de flagrante de pessoas varrendo a calçada com a mangueira. Quando foi implantado um plano de sustentabilidade no meu serviço eu ouvi gente falando que "e dai não vou estar mais aqui mesmo".

    Prefácio

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Existe uma historinha que ouvi e é mais ou menos assim:

      "Em um sítio, vários animais morreram porque ingeriram veneno, mas os porcos pouco ligaram. A comida deles não era a mesma, nem a água, tão pouco dividiam o mesmo espaço. Então eles só pensavam "to nem aí, não é comigo mesmo". Até o dia em que foram ao abate, um por um, já que eram tudo o que restaram aos sitiantes que precisavam se alimentar."

      Quanto às políticas, é difícil separar o joio do trigo. Muitas delas são oportunistas e não têm efeito prático real. Apenas um faz de conta. E as pessoas estão cansadas demais para ficarem analisando.

      Pegam tanto no pé de pessoas por causa de uma árvore na calçada delas, mas fazem vista grossa sobre um pantanal inteiro secando e animais morrendo. Com a Amazonia cada vez mais desmatada e desvalorizada. Com as matas dos vários municípios incendiadas e com a vegetação toda comprometida. As pessoas estão cansadas dessa politicagem que não focam onde realmente é necessário e só quer jogar uns contra os outros. O resultado é esse: o descaso total, a falta de se importar com o que realmente interessa.

      Um abraço, querida! Tudo de obm!

      Excluir
  5. Oi, postagem interessante, Fabiano! A primeira vez que vi a respeito de redemoinhos de fogo foi em uma reportagem televisiva, e por incrível que pareça ocorreu no Canadá, país famoso por ser extremamente gelado, acho até que sua condição de nação picolé é sua maior projeção no exterior, até então não sabia que a natureza produzia algo tão imponente e assustador, o fenômeno natural parece mesmo uma entidade, impressionante! Fico imaginando o quanto de mitos esse tipo de fenômeno rendeu na Antiguidade e Idade Média.
    A história do incêndio na casa do Chico Bento não conheço ou pelo menos acho que não conheço, é publicação da Editora Abril?
    "Os defensores da mata" conheci republicada em algum almanaque da Editora Globo, não sabia que foi publicada no número 5, história muito boa, o Chico Bento sempre antagonizava com operários urbanizadores.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá,tudo bem? Os Almanaques da editora Globo ao longo da década de 80 e 90 sempre traziam histórias da Abril. Muito bom isso.

      Da reportagem que vi, o fogo realmente foi assustador na TV. Imagine quem esteve perto. Imagino o que o povo antigo pensaria. Talvez houvesse alguma divindade específica ou crendice na personificação do mal. Vai saber!!

      Se não me engano, foi na editora Abril ela história. Mas pode ter sido também nos primeiros anos da Globo.

      Excluir