terça-feira, 21 de junho de 2022

O CEMITÉRIO, MINHA EXPERIÊNCIA LITERÁRIA

Chegou o dia em que resolvi obter minha primeira experiência literária com Stephen King, e o livro que escolhi foi um clássico: O CEMITÉRIO.

Trata-se de uma família que se muda para um lugar chamado Ludlow, retratado na história por, basicamente, conter moradias não muito próximas, constituídas por um grande terreno. Essa família se mudou para uma casa à beira da estrada que possui uma mata à frente, inclusa na propriedade. Então o vizinho, um senhor chamado Jud que tem uma porção de histórias para contar, já que é veterano naquele lugar, em um dia de tédio, em vez de "bater uma" ou tentar a sorte com Norma, a esposa igualmente idosa que sofre de artrite reumatoide, ele resolve mostrar para a família Creed que a propriedade deles tem algo mais além daquela área verde: tem um cemitério onde a molecada das imediações costuma enterrar seus bichinhos de estimação. 

A família Creed é composta por Louis, que começou a trabalhar como médico em um hospital perto dali, a esposa Rachel assumiu o posto de dona do lar, a filha Eileen, curiosamente chamada de Ellie, uma criança curiosa na fase de querer saber os porquês da vida, o filho Gage (pouco maior que um bebê) e até um gato, mais conhecido como Church. 

O instante em que a família Do Ré Mi conheceu aquele cemitério de animais foi um divisor de águas em relação ao sossego que eles buscavam, pois Ellie ficou atormentada com a ideia da vida se acabar e perder quem ela mais amava, Rachel já tinha um trauma nada fácil de lidar por causa da morte da irmã, então coube a Louis segurar a batata quente do impacto causado sobre as duas e ainda ajudar a olhar do menino. Até hoje fico tentando pensar no que velho Jud tinha na cabeça quando resolveu levá-los a esse passeio. Às vezes penso que ele teve um pezinho de maldade. Outrora, acho que ele foi sem noção, talvez por causa da idade ou da realidade monótona.

A gente vai acompanhando a interação da família em relação a essa questão da finitude da vida, a morte que um dia chega e, principalmente, como é que ela vem para uns e outros. Louis, a princípio, é quem proporciona lucidez de raciocínio à filha, socorre o emocional traumatizado da esposa e busca ser um super pai ao Gage. E ainda tem disposição para ir visitar Jud e Norma, ao final da noite, na moradia que fica do outro lado da rodovia.

Mas o perfil de homem exemplar trabalhador, marido atencioso e paizão do lar começa a ruir quando o gato Church vira pastel  na rodovia, então Jud mostra a Louis algo além daquele cemitério de animais: um lugar circundado pela lenda de ressuscitar os mortos. E esse lugar ficou sendo uma espécie de segredinho entre eles. A partir daí, as coisas só pioram. 

Bom, o balanço que tenho dessa experiência é que Stephen King me surpreendeu pela carga emocional, a pegada dramática. A escrita dele nesta história não traz reviravoltas mirabolantes, mas, sim, uma camada comportamental de como vive e reage aquele pessoal, à medida que as coisas vão acontecendo.

A morte do menino, mostrada no filme oitentista de uma forma impactante no tempo presente da situação, no livro é retratada em meio ao remorsos de Louis durante o processo do velório, e o autor não poupa a gente dos detalhes horrorosos da maneira como a criança se foi, ao mesmo tempo em que o pai experimenta uma gama de sensações enquanto se encarrega dos detalhes do funeral -- uma certa culpa misturada com a impotência e, ao mesmo tempo, uma autoafirmação de que tudo não passou de uma tragédia e que nada poderia ser feito, ao mesmo tempo em que teve que encarar o pai da esposa, um homem difícil que sempre o viu como alguém que não servia para a filha. 

E aí, no decorrer da trama, fui vendo o que foi se desenrolando e, aos poucos, fui pegando raiva de Louis. Primeiro, porque ele foi advertido desde que chegou àquele lugar, que a rodovia era perigosa. O que ele fez? Nada. Ao invés de se ocupar colocando uma cerca, pensando em uma maneira de o acesso à estrada não estar tão fácil, ele preferiu se ferrar para levar os corpos ao tal cemitério ressuscitador, porque o remorso e o desespero eram tamanhos, que o impediram de raciocinar direito. 

Mesmo no fim do livro, quando o amigo do hospital o flagra naquela situação, e o chama, e tenta fazer com que ele se conscientize daquela palhaçada toda... ah... dá muita raiva de Louis. 

Aí, você pode estar se perguntando? E o terror? E o horror? Não tem? Tem, mas a questão é a pegada da narrativa que trabalha muito mais as personalidades do que criar monstros e acontecimentos incríveis. King me fez mergulhar tanto no interior daquelas pessoas que, por exemplo, quando li a Rachel no meio de toda aquela dificuldade em não conseguir chegar em casa, lutando contra o sono, a exaustão, o tempo, intercalando com o momento de Louis no cemitério, algo dentro de mim só faltava gritar para ela largar mão daquilo tudo e voltar correndo para a casa dos pais. Eu não sabia em quem gostaria de dar uns tapas: nela ou no Louis. 

E apesar de estar nítido que o lugar possuía certo encantamento, uma presença maligna que circundava toda Ludlow e tomava conta da mente das pessoas, sem que elas se dessem conta (sim, pois esse foi o pano de fundo da trama toda; o sobrenatural), eu acho, sim, tudo culpa do Louis. Ele teve escolha. Durante o tempo todo se ferrando, ele poderia muito bem abrir os olhos e pensar na palhaçada do que estava fazendo. Cada obstáculo que surgiu o deixou mais obstinado em fazer. Então ele que se exploda! 

2 comentários:

  1. Oi, Fabiano! Particularmente adoro as obras do Stephen. Que bom que sua experiência tenha sido boa. Não deixe de conferir outros livros do autor, certamente você se surpreenderá ainda mais, uma vez que, existem muitos livros de excelência dele por aí. Um abraço!

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    1. Oi, Luciano. Vou dar uma procurada no seu blog, pra saber se voce postou algo do Stephen King lá. Um abraço, querido.

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